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Mais vida na VIDA!

Clarice Ebert (01/09/2017)

A vida segue num cotidiano repetitivo, em que a sede e fome por mais VIDA se faz presente continuamente. Essa VIDA que ansiamos foi objetivo do Senhor para nós. Ele mesmo revela esse objetivo ao dizer “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância” (João 10.10).  A VIDA, que é o próprio Jesus, é para todos e quando nos abrimos para ela, mais e mais desvendamos o seu real significado e valor para a caminhada cristã.

Temos mais vida na VIDA quando compreendemos a dimensão de que a vida abundante nos é trazida Nele e não produzida por nós. Há uma fonte de mais VIDA e quando a buscamos melhoramos a nossa vida. Significa ter mais vida na proximidade relacional com a VIDA.

A proximidade relacional com a VIDA nos leva a um conhecimento especial dela. Esse conhecimento fará com que sejamos o perfume de Cristo, que é exalado por Deus através de nós em todo lugar, conforme II Coríntios 2. 14-15: “14Mas graças a Deus, que sempre nos conduz vitoriosamente em Cristo e por nosso intermédio exala em todo lugar a fragrância do seu conhecimento;15porque para Deus somos o perfume de Cristo entre os que estão sendo salvos e os que estão perecendo”.

O texto traz a metáfora do perfume para nos ensinar sobre a vida cristã.

Quem não gosta de um bom perfume, de bons cheiros e boas fragrâncias?

Cada pessoa tem preferências em relação às fragrâncias, uns gostam de mais cítricos, outros mais amadeirados, outros preferem os mais doces. O fato é que nós gostamos de bons perfumes.

Fragrâncias borrifadas em nosso corpo são extremamente agradáveis tanto para nós mesmos como para qualquer pessoa que se aproximar de nós. Ao usarmos determinada fragrância espalhamos seu perfume por onde passamos.

No entanto, borrifar boas fragrâncias em pontos externos de nosso corpo pode ser insuficiente. Pois quando alguém está sem banho não basta colocar perfume. Mesmo que seja o melhor dos perfumes, a mistura da fragrância do perfume com o odor de um corpo mal higienizado resulta num cheiro desagradável. Para se exalar uma boa fragrância, não basta usar um bom perfume, é preciso também lavar o corpo, escovar os dentes etc. Não basta utilizar perfume simplesmente para disfarçar os maus cheiros. Caso contrário eles sobrepujarão a fragrância de qualquer perfume, mesmo que seja o melhor. Tomando esses cuidados circulamos entre as pessoas sem constrangimentos.

Podemos utilizar a metáfora dos perfumes para lembrar que além dos perfumes externos que exalamos por onde andamos, exalamos também “perfumes” de outra ordem, que são as fragrâncias que exalamos de nossa alma, as que vêm da nossa essência. Por mais que nos perfumemos e ornemos externamente, não dará conta de disfarçar quem somos em nossa essência.

Portanto, os cuidados para exalarmos uma boa fragrância por onde passamos, incluem especialmente os cuidados relacionados à nossa essência.

O bom perfume de Cristo remete a um conjunto de bons aromas que são reproduzidos e exalados pela via da espiritualidade. É um perfume muito especial cuja fragrância somente é obtida na relação com Deus.

Tentar obter essa fragrância pela via da religiosidade é o mesmo que usar perfume sem banho. Só serve para disfarçar o mau cheiro e nunca por muito tempo.

A fragrância do conhecimento de Deus, salientado nas Escrituras, não é algo que se possa comprar e simplesmente borrifar em alguns pontos externos de nosso corpo. Podemos entender equivocadamente que assumindo certas posturas e comportamentos estaríamos exalando o bom perfume de Cristo. Posturas e comportamentos podem ser aprendidos simplesmente para sermos aceitos em determinado grupo de pessoas, sem, no entanto, estar em sintonia com nossa verdadeira essência. Por exemplo: quando alguém entra para determinado grupo religioso rapidamente aprende como as pessoas são aceitas nesse grupo, qual é a expressão de santidade esperada das pessoas. Se a maturidade espiritual é medida por um comportamento de levantar as mãos durante o louvor, por exemplo, é possível que se aprenda esse comportamento rapidamente. Então, mesmo que por dentro se esteja completamente desconectado espiritualmente, por fora todos julgarão que é alguém espiritual simplesmente por estar dentro de um script de comportamentos esperados dos santos. Dessa forma, a religiosidade nos ensina que representar a espiritualidade é possível. No entanto, isso é o mesmo que usar um perfume sem banho. Representar uma espiritualidade que não temos é “brincar de fazer de conta” que somos “perfume de Cristo”.

Ser o bom perfume de Cristo é uma dimensão que vai além de simplesmente aparentar posturas e comportamentos nobres diante das pessoas. Envolve ser instrumento de Deus para que ELE exale a fragrância do seu conhecimento, em todo lugar, por nosso intermédio.

O texto esclarece as perguntas:

  • Quem exala a fragrância? “É Deus quem exala a fragrância…”.
  • De que forma? “… por nosso intermédio”.
  • Que fragrância é essa? “… a fragrância do seu conhecimento”.
  • O que somos para Deus? “… para Deus somos o perfume de Cristo…”.
  • Por onde exalamos? “… exala em todo lugar”.
  • Entre quem exalamos? “… entre os que estão sendo salvos e os que estão perecendo”.

O texto nos traz a ideia de que ser o perfume de Cristo remete a algo que vem de dentro, da nossa essência, e não de fora, de uma representação.

O perfume de Cristo tem a ver com o que é produzido a partir do conhecimento dele. Portanto, o conhecimento dele é o elemento chave da essência desse perfume.

Mas, o que significa conhecer a Cristo? É possível conhecer superficialmente, pessoalmente e relacionalmente.

I. CONHECER CRISTO SUPERFICIALMENTE – “Seguindo na vida apenas ouvindo falar da VIDA!”

É possível conhecer alguém só de ouvir falar.

Quando alguém nos conta algo de alguém ou mesmo quando lemos algo sobre alguém podemos dizer que sabemos alguma coisa dessa pessoa de ouvir falar.

No entanto, apenas conhecer de ouvir falar não significa conhecer realmente. É dessa forma que conhecemos as celebridades do mundo do cinema ou da música etc. A mídia nos conta sobre os famosos, os detalhes do que vestem, comem, bebem, com quem estão ficando, namorando, casando, brigando, qual o número de casamentos que já tiveram, se casados ou divorciados, seus prêmios, condecorações etc. Mas, conhecer detalhes da vida de famosos pela mídia não significa que os conhecemos de verdade. É um conhecer de ouvir falar.

Da mesma forma quando lemos uma biografia de alguma pessoa, ou registros históricos de pessoas importantes na história, na sociedade ou na ciência, não significa que conhecemos essas pessoas de fato. Somente conheceremos algo a respeito delas a partir do que o escritor nos conta.

Por exemplo, poderíamos dizer que conhecemos o evangelista Billy Graham. Temos acesso a sua biografia que relata particularidades da sua vida, infância, família, conversão, vocação, realizações etc. A partir da leitura de sua biografia podemos contar aos outros sobre sua vida. Podemos dar aula sobre esse homem que influenciou tantas vidas. No entanto, se nunca tivermos nos encontrado e relacionado pessoalmente com ele, devemos reconhecer que o conhecimento que temos dele é superficial, ou seja, apenas de ouvir falar. Alguém nos contou a sua trajetória em um livro e ao lermos abrimos nossa escuta e o que conhecemos do Billy Graham é apenas sobre o que foi contado por um escritor. Não houve um conhecimento dele por meio do encontro pessoal e nem mesmo pela intimidade de um relacionamento.

Da mesma forma podemos conhecer as personagens bíblicas em destaque e suas histórias apenas de ouvir falar. Ao lermos nas Escrituras sobre Cristo é possível conhecê-lo superficialmente, apenas em ouvir falar daquilo que os autores nos contam sobre quem ELE é, para o que veio e o que pode fazer nas nossas vidas. Apenas saber dos seus atributos não nos leva a um conhecimento íntimo dele. É possível conhecer os seus atributos, como saber que ELE é o salvador da humanidade, o caminho, a verdade, a vida, o pão da vida, a luz do mundo, a estrela da manhã, o príncipe da paz, o bom pastor, o filho de Deus, o sumo sacerdote, e mesmo assim saber disso apenas de ouvir falar.

Podemos conhecer Cristo de ouvir falar por meio de um testemunho, ou da leitura de algum livro, ou pela leitura bíblica, pregação, palestra e mesmo por meio de estudos teológicos altamente elaborados. Por mais que tenhamos conhecimentos intelectuais rebuscados de quem seja Cristo, ainda assim é possível conhecê-lo apenas de ouvir falar, ou seja, superficialmente. Podemos até mesmo estudar aprofundadamente sobre a vida de Cristo e nos tornar mestres no ensino sobre Cristo e mesmo assim não experimentar essa VIDA em nós.

Saber que ele é o pão e a água da vida pode não saciar a nossa fome e sede espiritual. Se não comermos desse pão e não bebermos dessa água, a fome e a sede espiritual possivelmente continuarão. Poderia exemplificar isso contando que na rua onde moro tem uma padaria que faz um pão muito saboroso. Eu sei disso porque sempre que passo em frente o aroma de pão fresquinho é intenso e me faz querer entrar lá e degustar boa parte deles. No entanto, se eu não entrar lá e provar daquele pão não saciarei a minha fome e o que eu contar do que sei desse pão será apenas sobre o que imagino dele. Ao contrário, se eu provar daquele pão poderei dizer que conheço o seu sabor de experimentar e de me nutrir com ele.

Da mesma forma, conhecer Cristo apenas pelo ouvir falar não será o suficiente para que nosso ser esteja embevecido por ele de tal forma que a fragrância do seu conhecimento seja exalada pela nossa expressão de vida.

Se o conhecimento de Cristo estiver apenas fundamentado no saber intelectual sobre ele, a expressão da vida cristã pode se tornar uma representação da essência e não a essência real. Apenas um conhecimento intelectual sobre Cristo não atinge as profundezas da nossa existência. Obviamente que estudar sobre Cristo é importante. No entanto, mesmo que reproduzamos um discurso a partir do que ouvimos falar sobre Cristo por meio de estudos, sermões, palestras, vídeos, letras de músicas, teatros etc., ainda é possível não exalar a essência de seu perfume a partir da experiência pessoal e relacional com ele. Para isso é necessário conhecê-lo num nível mais profundo.

II. CONHECER CRISTO PESSOALMENTE – “Minha vida encontrando a VIDA!”

Conhecer Cristo pessoalmente é muito mais do que conhecer sobre Cristo. É um conhecer diferente do que conhecer apenas de ouvir falar. Isso significa que não basta ouvir falar é preciso experimentar Cristo num encontro pessoal com ele.

Para que um relacionamento entre duas pessoas se estabeleça é necessário partir do encontro. Da mesma forma se dá em nosso relacionamento com Cristo.

Mas esse é apenas o início. Podemos conhecer alguém num encontro casual sem que evolua para um relacionamento. Assim podemos conhecer a Cristo em um momento, mas se não dermos sequencia na relação com ele o relacionamento não se firma. Como aqueles adolescentes que se prestam a “ficar” um com o outro, como meros utilitários para um momento, mas que nunca assumem uma relação que evolua para um relacionamento mais responsável mediado por um amor verdadeiro.

Para que desenvolvamos um relacionamento real e verdadeiro é preciso manter a conexão com ele, que é a VIDA que queremos na nossa vida. Aqui é importante lembrarmos que por mais que seja importante fazer parte de um grupo de pessoas em que a fé também é partilhada na coletividade, a conexão espiritual com Cristo é uma caminhada individual, pessoal.

Portanto, para exalar o perfume de Cristo pelo conhecimento dele não basta apenas conhecer sobre Cristo.  Nem mesmo basta ir de carona com pessoas que exalam a fragrância do conhecimento de Cristo. É preciso conhecer Cristo pessoalmente. Mas também é preciso conhecer Cristo numa conexão constante com ele de tal forma que aquele encontro pessoal com ele evolua para um relacionamento íntimo.

III. CONHECER CRISTO RELACIONALMENTE – “Minha vida em intimidade com a VIDA!”

O salmista enfatiza que “A intimidade do Senhor é para os que o temem, aos quais ele dará a conhecer a sua aliança” (Salmos 25.14). Temer a Deus envolve veneração, honra e zelo para permanecer ligado a ele continuamente. Essa intimidade nos permite uma conexão com ELE a tal ponto que nos fará conhecer a sua aliança. A partir desse conhecimento será possível que ELE exale o seu perfume através de nós.

Exalar o perfume de Cristo somente é possível se estivermos numa conexão relacional com Ele. Do contrário será apenas representação. E como toda representação, tem hora e lugar para acontecer. Não é possível representar o tempo todo. Cansa e até mesmo adoece. Não é genuíno. É teatro.

A vida cristã deve ser resultado de uma vida relacional com Cristo e não apenas intelectual. Isso significa não apenas aprender de Cristo de forma intelectual, mas de forma relacional. Não apenas pela educação sobre Cristo, mas pela experiência pessoal com ele. É a partir da experiência de intimidade com ele que as mudanças acontecem. Se o nosso conhecimento de Cristo for apenas de ouvir falar, ou racional e intelectual, corremos o risco de representar uma vida cristã moralista e/ou legalista, assumindo posturas politicamente corretas, mas desprovidas da essência do amor cristão, por exemplo.

Dessa forma, é possível saber muito sobre Cristo e, mesmo assim, nada exalar de sua essência. Podemos discursar lindamente sobre os magníficos preceitos do Salvador, mas, que não se revelam em nossa expressão de vida e no contato com nossos semelhantes. Podemos até mesmo ser mestres a respeito da vida cristã, o que também pode aprimorar nossa representação dela, mas não garante a expressão de uma vida cristã realmente. E assim, podemos nos igualar aos mestres da lei, aos escribas e religiosos da época de Jesus aqui terra. Eles eram os intelectuais da religião. Sabiam sobre todas as leis e como se deveria cumpri-las. Ensinavam ao povo. No entanto, suas posturas puritanas e moralistas eram apenas representações de uma espiritualidade sem raízes profundas. Suas posturas políticas, seu desamor para com as pessoas revelavam sua desconexão da essência da VIDA com Deus.

Se o nosso conhecimento de Cristo estiver fundamentado apenas em nosso pensamento, corremos o risco de nos tornarmos bons atores sobre os preceitos da vida cristã. Podemos representar que somos santos, que amamos, que nos importamos, que somos gratos, que temos fé, que somos corretos e justos, que oramos, que temos uma família sem crises, que somos bondosos, que somos transparentes, honestos, fieis etc. No entanto, uma representação da vida cristã não se sustenta para além do espetáculo. Pois quando o público alvo desaparece, ou seja, quando as pessoas para as quais interessa representar não estiverem presentes, rapidamente também desaparece a santidade, o amor, a honestidade, a fidelidade, a justiça, a bondade, a fé etc. A representação se esvai e a realidade de nossa essência, que está muito além do nosso racional e intelectual, emerge e aparece.

Conhecer a Cristo somente de ouvir falar não organiza nossa estrutura interna. Para isso é necessário que, a partir de um conhecimento dele pelo encontro pessoal geremos uma conexão relacional. Isso será possível numa experiência relacional, não apenas racional. O conhecimento intelectual sobre Cristo, por mais que alimente a estrutura do nosso pensamento, não dará conta de promover as transformações profundas pelas quais nosso interior precisa passar.  Para conhecer a Cristo intimamente é preciso relacionar-se com ele. Mergulhar num conhecimento relacional com Cristo só é possível por meio da disciplina da devoção.

Carlos José Hernández[1] nos ajuda a entender melhor o sentido da devoção:

A devoção é uma postura de submissão ao Grande EU SOU, em que diante de sua grandeza assumimos o nosso verdadeiro tamanho e podemos perceber melhor que não somos o centro do universo. Porque o CENTRO é CRISTO.  Na devoção colocamo-nos em estado de alerta para percebermos a majestosa presença amorosa dele. O que nos impacta e transforma não são nossos pensamentos ou imaginações sobre Deus, mas a realidade que é a Presença do criador. Ante a sua Presença somos afetados, mudados, transformados. Na Presença de Deus nos conhecemos e conhecemos a ELE que nos ama. Esse conhecimento mexe com nossa essência e resulta numa transformação. Sua presença visita nosso inconsciente/consciente e reformula e organiza toda a nossa existência, e o texto que diz: “Em Cristo são novas todas as coisas” passa a fazer sentido (II Coríntios 5.17). A característica fundamental dessa transformação é a dinâmica reconciliadora que se estabelece em todas as nossas relações. “Quem crê em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva”.  (João 7.38)

Reflexão final

Conhecer a Cristo relacionalmente nos enche da verdadeira VIDA. Ela nos protege de representações hipócritas na vivência cristã. O exalar da fragrância do seu conhecimento ocorre como uma consequência natural da essência da verdadeira VIDA em nós.

Na proximidade relacional com a VIDA, que é Cristo, conhecemos as qualidades do nosso Senhor, não só de ouvir falar ou num encontro casual, mas conhecemos um MESTRE cheio de amor, graça, compaixão e misericórdia. A partir de um relacionamento íntimo com ele, exalamos a fragrância dessas mesmas qualidades, sendo o bom Perfume de Cristo. E a nossa vida experimentará mais da verdadeira VIDA.

[1] Hernández, Carlos José. (2015). Leiamos a Bíblia: guia para leitura meditativa.  3ª edição. Joinville: Grafar.

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